Airsoft: uma visão aprofundada sobre o esporte que mais cresce no Brasil.

Equipamento? Ok! Munição? Ok! Esquadrão? Presente, senhor!

Parece um treinamento militar mas, na verdade, é apenas uma brincadeira. Brincadeira de gente grande, com regulamento, uniforme, regras e legislação para o uso dos “brinquedos”. E o nome dessa diversão? Airsoft.

Para quem não conhece, trata-se de um esporte no qual os jogadores participam de simulações militares utilizando armas de pressão, que substituem a munição real por esferas plásticas – que têm de seis a oito milímetros e não são letais -, as famosas “bb’s”. Iniciado no Japão nos anos 70, sua popularização na região asiática se deu devido a países como Taiwan, Coreia, Hong Kong e China restringirem duramente a obtenção de armas de fogo por civis. Assim, o airsoft acabou surgindo como uma alternativa a esse controle e logo se tornou uma prática recreativa.

A principal característica das armas de airsoft, as AEG’S (Automatic Eletric Gun) ou GBB (Gas Blow Back), é a similaridade estética e funcional  com modelos reais: elementos como design, peso e mecanismo de utilização são bem próximos das versões originais. No entanto, a grande diferença é a utilização de munição não-letal e a ausência de pólvora. Em vez do convencional propulsor, entram em cena gás, eletricidade ou ar comprimido. Criando, assim, diferentes tipos de alcance em cada um dos casos. Apesar de já haver uma regulamentação desse tipo de equipamento no Brasil, o transporte deve sempre ser feito como o de uma arma real: dentro da caixa, com nota fiscal e carteira de identificação.
Por aqui, o esporte chegou em meados de 2003, quando começou a ser divulgado em vídeos, fóruns e sites na Internet. Aníbal Medeiros, advogado, 23 anos e praticante de airsoft há cerca de seis meses, conta como o esporte surgiu na sua vida: “Descobri o airsoft assistindo a vídeos estrangeiros na Internet. Estou praticando há quatro meses e o que mais me atrai é a adrenalina real e o estilo de simulação militar. Por isso, a seriedade e o comprometimento dos jogadores é muito importante.”

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Devido à proximidade com a realidade do combate, o esporte tem atraído, também, muitos militares. Engana-se quem pensa que apenas jovens em busca de aventura e adrenalina praticam o esporte. Flavio Pacca, especialista em armamento, tiro e balística e instrutor de tiro da PCERJ92, diz que o airsoft vai mito além de uma brincadeira: “Hoje, além de um bom exemplo de recreação, o airsoft também se transformou em uma importante ferramenta de treinamento para forças policiais, tendo em vista a similaridade com o equipamento real e o fato de se poder treinar atirando direto em um inimigo que se movimenta e tem estratégia de combate, elevando a qualidade do combatente”.

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Muitos jogadores vieram por intermédio de outro esporte: o paintball, que tem como base o mesmo princípio, porém utilizando esferas preenchidas com tinta, para marcar o adversário quando este for atingido. Um desses ex-jogadores de paintball é Alexandre Rino, 38 anos, comerciante e fundador da Nação Carioca de Airsoft93 (NCA). Praticante de airsoft há cinco anos, ele também realiza frequentemente treinamentos para quem quer se tornar um operador no esporte: “Por se tratar de um jogo sério, no qual a honestidade de cada um é imprescindível para o andamento da operação, valores e regras devem ser passados antes de qualquer treinamento físico para cada novo operador”. A iniciação conta com palestras educativas nas quais toda a filosofia e regras do jogo são transmitidas para quem quer fazer parte do esquadrão.

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(Equipe NCA- foto: Luiza Sousa)

Além disso, para se tornar  um “operador”, como são chamados os jogadores de airsoft, devem ser cumpridos alguns requisitos: ter mais de 18 anos; usar óculos de proteção que tenha sistema periférico e atenda às normas ANSIZ87.1-1989; um pano vermelho (para sinalizar que foi atingido e está fora da partida); CRO (carteira de registro do operador); arma de airsoft legalizada apresentando ponta vermelha ou laranja; nota fiscal da arma legalizada que deverá ser apresentada na entrada de todos os jogos e, por último, mas não menos importante: um recipiente com água potável para hidratação durante as partidas.

Para poder participar de uma partida, você precisa estar devidamente trajado com o seus equipamentos. São eles:

capateceCapacete: O crânio humano protege naturalmente o cérebro; mas nada impede que reforcemos essa área com o uso de capacetes, certo? Os modelos disponíveis no mercado são bem variados e é necessário que se verifique quais são as melhores opções, entre formatos de cabeça e tipos de uso, para que não ocorra qualquer dano à cabeça.

luyvasdLuvas: Campos de airsoft são, por excelência, locais acidentados, inóspitos e rústicos, o que significa que qualquer praticante precisará se apoiar muito bem, utilizando as mãos, para se posicionar ou não cair. Graças à tecnologia atual, alguns modelos de luvas são elaborados com materiais antiderrapantes e aderentes, com a finalidade de ter mais empunhadura para precisão da mira.

coturjnomCoturnos: As botas ou coturnos irão fornecer a proteção ideal para a região inferior das pernas e para os pés. Podem ser à base de couro natural, sintético, ou outros materiais bem fortes e resistentes. Deste modo, propiciarão boa movimentação em terrenos mais difíceis. Um solado de borracha especial ajuda a dar um efeito antiderrapante e maior conforto ao pisar no campo.

mascaras Máscaras e óculos: A face é muito delicada e pode ser ferida com relativa facilidade. Para evitar isto, é preciso utilizar máscaras, que protegerão a área bucal e mandibular, e óculos, para evitar qualquer risco aos olhos do combatente durante a partida.

joelhuera Joelheiras: Por ser uma das principais articulações do corpo humano, responsável por suportar muito peso e sofrer com constantes impactos, a região do joelho precisa, também, estar bem protegida. Assim, mesmo que o jogador tenha de se movimentar de joelhos, abaixado ou mesmo se cair, a joelheira irá minimizar qualquer dano que possível dano. Sendo assim, este acaba sendo um item indispensável.

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Existem vários modos de jogo. Dentre os mais praticados, estão o “For Fun” e o “Milsim”.

For Fun: Ideal para iniciantes experimentarem a adrenalina de um jogo, o For Fun é uma modalidade que busca apenas o entretenimento, sem muitas exigências táticas dos jogadores e equipes, que são conhecidos como “operadores de final de semana”. No For Fun, o cenário não é tão detalhado, os equipamentos são mais básicos, a quantidade de munição não tem limite e não há muitas regras de combate, além das regras básicas do airsoft e de segurança. Modalidade mais comum do esporte, as partidas geralmente são jogadas por curtos períodos e podem ser do tipo “caça bandeira”, “mata-mata” ou de missões simples.

Milsim: Já na Milsim (ou simulação militar), o jogo é o mais próximo possível da realidade militar, inclusive nas táticas, comunicação, armas e regras de combate. Voltadas para jogadores intermediários e avançados, as partidas, geralmente, simulam missões, cujos objetivos pedem que o praticante cumpra as outras tarefas estabelecidas no início da operação e não o combate direto entre jogadores. Estes objetivos podem ser de eliminação da outra equipe, captura, escolta, ataque contra defesa ou  proteção de área. Essa modalidade tem regras mais rígidas e controladas, como a quantidade de munição, regras médicas, tempo e fardamento. Reúne duas ou mais equipes e pode durar até 3 dias.

Luiz Vicunha, 30 anos, advogado e praticante de airsoft há 3 anos, contou um pouco mais sobre o que é ser um operador. Confira na entrevista abaixo:

Há quanto tempo você pratica airsoft?

Luiz Vicunha: Pratico o MILSIM (simulação militar) desde 2009, na época, usávamos o paintball como ferramenta para os jogos. Hoje em dia, usamos o airsoft pela logística ser mais fácil, basta carregar a bateria e ir para o jogo.

– Você participa de algum grupo? Existem competições?

Luiz Vicunha: Não existe competição no airsoft, não existe um melhor e um pior, pelo menos no MILSIM. Ali, existem pessoas que compõem um exército com o objetivo de cumprir as missões do evento. Se são cumpridas ou não, é consequência de como anda o evento. Isso distingue o MILSIM de uma prática esportiva. Eu faço parte de um grupo fechado de jogadores, uma vez que nós prezamos e levamos a sério o MILSIM. Para fazer parte do grupo, tem que ser convidado ou, quando abrimos inscrições, a pessoa entra após todo um processo rigoroso de análise de perfil e antecedentes. Isso tudo para não poluir nosso meio com pessoas com outros fins diferentes da prática do MILSIM, mas existem outros grupos com critérios de aceitação menos rígidos.

– Qual a média de preço das armas?

Luiz Vicunha: Existem armas de R$ 200,00 a armas de mais de R$ 10.000,00. As mais baratas não são utilizadas para o esporte em si, e sim para fins recreativos ou coleções particulares por serem muito frágeis e não funcionarem bem em eventos. Exemplo das armas springs, que atiram apenas 1 bb por vez contra uma M249 que atira rajadas de 30 bb’s por segundo.

Quais são os tipos de armas de airsoft? Existem cuidados  ou requisitos específicos para cada tipo? E qual é o mais usado aqui no Brasil?

Luiz Vicunha: O airsoft, hoje, está cada vez mais popular e sempre trazendo inovações para os jogadores. Acredito eu que já existam armas de airsoft de todos os modelos já inventados de armas de fogo. Digo isso pois já vi pessoas usando desde uma Thompson Chicago até fuzis que foram utilizados na Primeira Guerra Mundial. É comum se encontrar em campo snipers, shotguns, fuzis variados como M4, M16, AK47, MP5 e armas de grande porte como a M249 ou a M60.

Os requisitos para se utilizar as armas é ser maior de 18 anos de idade e estar portando a nota fiscal para comprovar que o produto é lícito. Além disso, todas as armas devem ter a ponta pintada de laranja ou vermelho vivo, para provar que não são reais. Nunca se deve manuseá-las em vias públicas, apenas em locais específicos para os eventos e treinamentos. Não existe cuidado especial de acordo com a classe de armamento, apenas os cuidados citados para evitar complicações com pessoas que não conhecem o airsoft.

Você percebe que o público praticante desse esporte tem aumentado?

Luiz Vicunha: Sim, tem aumentado bastante o acesso ao airsoft. Devido à divulgação em mídia, internet e nas mais diversas formas de comunicação.

Existe alguma legislação vigente ou controle quanto à compra e venda das armas?

Luiz Vicunha: Sim, o controle do armamento de pressão é feito pelo Exército, por meio da portaria COLOG 002 e pelo decreto R105. Ambos são fáceis de se encontrar na Internet e, basicamente, distinguem o airsoft como armas de pressão de calibre 06 mm, estando dentro do uso permitido por qualquer cidadão, desde que o mesmo seja maior de 18 anos. A exigência no ato da compra é que a nota seja emitida em nome da pessoa que comprou e que esta seja maior de 18 anos.

Existe algum tipo de preconceito com os praticantes de airsoft?

Luiz Vicunha: Não existe preconceito, existe desinformação. O praticante de airsoft preza pelo esporte e trata o mesmo com o máximo de cuidado. O problema é como as armas são tratadas no Brasil, como são encaradas de forma negativa. Pessoas veem as armas como um instrumento voltado para a prática de crimes, quando nada mais são do que ferramentas de trabalho e defesa. A arma que o pessoal vê como objeto temeroso trouxe diversas medalhas para o Brasil nessas Olimpíadas. Tudo depende de como a pessoa trata determinado assunto. Por isso o vínculo negativo com praticantes de airsoft porém, em poucos minutos de conversa, isso se desfaz e a pessoa que tinha algum receio acaba ficando curiosa e com vontade de conhecer melhor o esporte.

– Qual exigência é feita para quem deseja comprar uma arma? 

Luiz Vicunha: Sim. Para a compra legalizada, o comprador deverá ser maior de 18 anos e apresentar um documento na loja que comprove sua idade.

Já para equipamentos a gás, a legislação é ainda mais específica e exige o CR do comprador, um documento emitido pelo Exército.

– Existe um perfil de jogador?

Luiz Vicunha: Sim, existe. Pessoas que caem de paraquedas no airsoft não tendem a ficar por muito tempo pois o airsoft é um hobby bastante regrado. Hierarquia, disciplina, honra e hombridade fazem parte do que a atividade prega. Se a pessoa não tem isso, ou é expulsa dos grupos ou simplesmente sai por não se enquadrar.

As partidas ocorrem em terrenos baldios, antigas construções, ruínas ou parques abandonados. Para Raphael Loureiro, 30 anos, biólogo e recente no esporte, “Quanto mais cara de cenário pós-guerra, melhor! Dá ainda mais realismo ao jogo!”. Além disso, outros detalhes contam para a construção de uma cenário quase idêntico ao de um verdadeiro combate militar. Os uniformes camuflados, rádios transmissores para a comunicação dos times, coletes táticos, botas especiais, falsas granadas e o briefing da missão são muito importantes. Antes de cada partida, os jogadores recebem todo o planejamento por meio de mapas, fotos e informações com a missão de cada esquadrão.

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(foto: Alexandre Rino)

Então, se você se interessou e pretende entrar para o jogo, é importante lembrar que nessa modalidade não há vencedor ou perdedor. Para além de campeonatos ou premiações, o airsoft busca promover boa conduta, noções básicas de estratégia, liderança, coragem e, principalmente, diversão. Por isso, inspire-se e entre no clima você também. Porque missão dada, é missão cumprida!